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A saúde mental dos profissionais do setor audiovisual tem de ser prioridade, alerta especialista
Rodagem de filme
55% dos trabalhadores de cinema e TV já equacionaram o suicídio

Claire Cordeaux abordou o tema no programa de formação da 17.ª edição do FEST, cuja sua investigação concluiu que cerca de 55% dos trabalhadores de cinema e TV já equacionaram o suicídio.

A coordenadora da Associação Britânica de Medicina para as Artes Performativas (BAPAM), Claire Cordeaux, defendeu esta sexta-feira, em Espinho, que as entidades patronais da indústria audiovisual têm a obrigação de ajudar os seus profissionais a preservarem a sua saúde mental.

Cordeaux abordou o tema no programa de formação da 17.ª edição do FEST — Festival Novos Realizadores Novo Cinema, que, até ao próximo domingo, tem nessa cidade do distrito de Aveiro mais de 200 filmes em competição, todos por realizadores até aos 35 anos de idade ou que no ano anterior tenham dirigido a sua primeira ou segunda obra.

As instituições que empregam estes profissionais e artistas podem não ser responsáveis pela saúde mental dos seus trabalhadores, mas devem ajudá-los a cumprir os seus objetivos de saúde e evitar criar-lhes dificuldades em consegui-lo”, afirmou.

A posição de Claire Cordeaux tem por base os resultados do estudo “The Looking Glass”, que, entre os cerca de 245.000 agentes da indústria britânica do cinema e audiovisual, inquiriu mais de 9.000, focando-se nos técnicos que não são atores e que trabalham em produção e bastidores.

Essa pesquisa demonstrou que “quase 90% desses profissionais off-screen experimentam problemas de saúde mental no emprego, percentagem que é significativamente maior do que a registada pela generalidade da população do Reino Unido, que se fica pelos 65%”.

A investigação apurou, inclusive, que 55% dos trabalhadores de cinema e TV já equacionaram o suicídio, enquanto só 20% da restante população considerou essa hipótese. Aliás, entre os profissionais inquiridos, 10% já tentaram efetivamente pôr fim à vida, enquanto essa estatística no universo demográfico geral do Reino Unido se fica pelos 7%.

Ansiedade, depressão e baixa autoestima foram os problemas mais relatados no estudo, o que se refletiu em sintomas físicos como “dificuldade de concentração, visão em túnel, vermelhidão no rosto, aperto no peito, agitação no estômago, vontade excessiva de urinar, sudação exagerada, tonturas, boca seca, dificuldade em respirar ou engolir, aumento dos batimentos cardíacos, náusea ou diarreia, tensão muscular e tremuras”.

Esses problemas são habitualmente ativados por mudanças súbitas no trabalho — “um novo cargo ou superior hierárquico, uma nova produção ou repertório, conteúdos perturbadores com que lidar, horários intensivos e trabalho deslocado de casa” — e, quando associados a desconforto mais prolongado, também podem ter origem em dificuldades recorrentes — como “mau equipamento profissional, ausência de luz natural, altos níveis de ruído, álcool e drogas, competição, poucas horas de sono, falta de controlo sobre o trabalho e falta de equilíbrio entre vida profissional e pessoal”.

Nessa lista de causas, Claire Cordeaux destaca como dominantes dois outros fatores: a incerteza financeira dos profissionais da classe, “o que se agravou com a pandemia”, e o bullying e assédio, “com 39% das mulheres inquiridas a denunciar que foram vítimas de assédio sexual e 56% dos entrevistados em geral a dizerem-se alvo de críticas pessoais” e outros atos de desvalorização.

A investigadora reconhece que o bullying e assédio passaram a ser mais denunciados nos últimos anos, mas declara que a generalidade das situações que conduzem a problemas de saúde mental continuam a não ser reportadas. “As pessoas têm relutância em fazê-lo porque receiam o estigma e o risco de perderem o emprego. Como têm medo de ver o respeito por elas diminuído ou de prejudicarem a sua reputação, preferem não falar disso em vez de requerem tempo de folga para tratar o problema”, explica.

Com base na evolução da estatística mundial da saúde mental, Claire Cordeaux alerta que, “a certa altura da vida, toda a gente vai trabalhar com alguém que tem um problema desses” e é por isso que, tanto a nível institucional ou individual, recomenda a todos os agentes do setor: “Estejam preparados. Façam um plano”.

Outros dois conselhos são os que apelam ao exercício físico regular e a que se cultivem “relacionamentos fora da indústria audiovisual”.

Entre os exemplos de entidades britânicas que vêm reconhecendo a importância da saúde mental e a necessidade de desenvolver e aplicar medidas para a preservar nos respetivos profissionais, a especialista refere cinco casos, a começar pelo da Royal Liverpool Philharmonic, que, além de proporcionar contratos estáveis aos seus músicos para lhes garantir segurança financeira, passou a disponibilizar-lhes “viagens em autocarro de luxo”, no final das atuações deslocadas, “para permitir que os artistas durmam na sua própria cama em vez de passarem a noite em alojamentos de baixa qualidade”.

O festival Fringe, de artes de rua, também passou a disponibilizar apoio médico aos seus elementos e o mesmo se verificou na convenção de hip-hop Breakin, cuja estrutura integra agora os serviços de fisioterapia e osteopatia.

A editora Universal Music, por sua vez, editou um manual com informação sobre diferentes facetas de neurodiversidade, para ajudar à compreensão de comportamentos como desordem da hiperatividade do défice de atenção, dislexia e síndrome de Tourette, e a produtora televisiva BBC criou um gabinete próprio para acompanhar os seus profissionais antes, durante e após o trabalho de cobertura de eventos traumáticos.

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